5 de março de 2014

Hora da Caminha


“…e amanhã cedinho, bem cedinho
tu vais ver
acordas mais forte e mais esperto,
isso é crescer.”
José Mendes Martins – “Vitinho”

Dormir bem é fundamental para o desenvolvimento das crianças. Mas o que significa dormir bem? Significa que o bebé consegue dormir durante a noite, sem interrupções, na sua cama e sem ajuda ou presença dos pais.
Uma pesquisa publicada no Jornal Médico Britânico descobriu que há uma relação entre o padrão de sono dos mais pequenos e o desenvolvimento cognitivo. Segundo este estudo, as crianças que tinham horários irregulares para dormir até os três anos foram as mais afetadas quando se tratava das competências para aquisição  de leitura, aritmética e percepção espacial.
Os pesquisadores concluíram ainda que os três primeiros anos de vida são um momento particularmente sensível para o sono e a sua relação com o desenvolvimento do cérebro. Durante o sono, os processos cognitivos organizam-se permitindo a aprendizagem e o estabelecimento de ligações entre as células cerebrais, e um desenvolvimento cerebral harmonioso. Além da renovação celular, a produção de grande número de hormonas ocorre durante o sono e são elementares para o crescimento e saúde do bebé.
A quantidade e qualidade do sono são uma das grandes preocupações dos pais. Ou o bebé acorda muitas vezes durante a noite para ser alimentado ou, já maior, nega-se a ir para a cama, ou insiste em levantar-se e dormir com os pais. Aos seis meses de idade, o bebé deve ser capaz de adormecer e dormir sozinho oito a dez horas seguidas.
A aquisição de bons hábitos de sono é aprendida e depende da atitude dos pais ao ensinar com segurança e tranquilidade as rotinas adequadas. O que fazer? Não existem gotas milagrosas para ensinar o bebé a dormir. Há, no entanto, algumas dicas que podem fazer toda a diferença!
Perceber os sinais. À medida que os pais conhecem os seus bebés começarão a reconhecer os sinais de quando o seu bebé tem sono. Bocejar é o sinal mais óbvio de que o bebé está com sono, mas também um determinado tipo de choro, o puxar pela orelha ou esfregar os olhos.
Estabelecer uma rotina. Os bebés e as crianças pequenas adoram rotinas. Esta deverá ser agradável e calma e pode incluir um banho, uma brincadeira mais tranquila, trocar de roupa, contar uma história , cantar canções de embalar ou um beijo de boa noite.
O importante é que a rotina se encaixe no ritmo da sua família e, principalmente, que ocorra no mesmo horário e da mesma forma todos os dias.
Adormecer sozinho. É fundamental que a criança adquira desde cedo autonomia para adormecer, isto é, que seja capaz de acalmar-se e adormecer sozinho sem a presença do adulto. Esta é uma capacidade importante que o bebé irá utilizar no resto da sua vida! 
Durante as várias fases do sono o bebé pode acordar a meio da noite.
 Se a criança estiver habituada à presença do adulto para adormecer, irá necessitar dessa presença cada vez que se tratar de readormecer. Para que adormeça de forma autónoma o bebé deve ser deitado na sua cama quando está com sono mas ainda acordada e não já a dormir.
 Dê ao bebé um peluche, uma fralda ou uma chucha para o ajudar a adormecer. Este objecto tem um efeito tranquilizador e deve ser usado exclusivamente para adormecer, para que o bebé possa associá-lo ao dormir.
Embalar o bebé até não conseguir mais, levá-lo a passear de carro, deitá-lo ao seu lado para fazê-lo dormir, permitir que fique acordado até se sentir exausto, são procedimentos que apenas prolongam os problemas e o bebé poderá ter muitas dificuldades em voltar a adormecer sozinho quando acordar a meio da noite. Também é aconselhado que os bebés se alimentem depois da sesta e não antes, uma vez que isso faz com que associem o leite ao sono e acabam por precisar de leite para acalmar (e adormecer) sempre que acordam a meio da noite. Ao alimentar o bebé depois da sesta ele não associará o sono à "comida" além de que comerá muito melhor já que terá mais energia e estará desperto o suficiente para não adormecer. 
Esperar com calma. Sempre que o seu bebé despertar durante a noite não vá ter com ele imediatamente. Existem mães que têm "molas" no corpo e que reagem por impulso a cada ruído do bebé. Espere sempre um pouco para perceber se o bebé continua a dormir e fica tranquilo nos minutos seguintes ou se, de facto, precisa de si. Se após um bocado continuar a chorar, pode-se entrar no quarto e permanecer uns minutos para acalmá-lo com palavras tranquilas, colocando o objecto de dormir perto, ou com uma carícia suave e breve. Deve-se evitar pegar-lhe ao colo, agarrar-lhe na mão, deitar-se ao seu lado na cama, acender-lhe a luz ou qualquer outra coisa que possa estimulá-lo. Os pais deverão sair do quarto enquanto a criança ainda estiver acordada.
Para o bebé, aprender a dormir é parte integrante da aprendizagem da sua autonomia. Para os pais ensinar um bebé a dormir, ser capaz de se separar dele, de se distanciar, é dar ao bebé a oportunidade de “aprender” a tornar-se independente durante a noite e consequentemente durante o dia.  Bons sonhos para todos!

4 de fevereiro de 2014

Cuidar de quem cuida


“Não há heroísmo maior que o de amar e tratar dos outros”
Pam Brown, N . 1928


Nos passados dias 16 e 17 de Janeiro foi realizada uma formação direccionada para cuidadores informais de pessoas dependentes, com o propósito de discutir questões como o que é cuidar, que impacto tem essa tarefa no cuidador e, principalmente, formas de lidar com o stress e procurar encontrar formas de “cuidar de si”.
 Quando nos deparamos com uma situação de doença necessitamos de ajuda, de um acompanhamento especializado e de um apoio incondicional para que consigamos ultrapassar tal momento da nossa vida. No entanto, situações de doença crónica implicam cuidados adicionais, continuados e/ou paliativos, que permitam ao doente não a cura ou tratamento dos sintomas, mas a procura do bem-estar físico e psicológico no momento em que lida com as consequências da doença.
Neste sentido, se pensarmos na forma como cuidamos das pessoas que são portadoras de doenças crónicas, concluímos que em Portugal a maioria dos cuidados são efectuados no âmbito familiar. Na sua maioria os cuidadores são mulheres, entre os 45 e os 60 anos. Habitualmente são as esposas ou as filhas que assumem este papel, muitas vezes em detrimento de uma vida profissional que as preencha, e prestam este tipo de cuidados durante vários anos.
Aceitarmos cuidar de alguém que apresenta algum tipo de dependência não é algo que planeemos ou possamos antecipar. Quando surge essa necessidade podemos assumir este papel por vários motivos, sendo exemplos disso a necessidade de retribuir de alguma forma o que essa pessoa já fez por nós, ou o facto de ser habitual, para o cuidador, os cuidados serem prestados por familiares ou ainda a recusa, por parte do doente ou dos próprios cuidadores, em institucionalizar a pessoa dependente. Neste sentido, os cuidados que mais se verificam relacionam-se com as Actividades de Vida Diária, como cuidados de higiene pessoal, vestir, alimentar, mobilidade, etc. Os cuidadores auxiliam ainda em actividades como o transporte, compras, actividades domésticas, preparação  de refeições, administração e gestão financeira ou administração de medicamentos.
Devemos então reflectir na forma como este papel interfere no quotidiano de quem cuida e que consequências acarreta para a sua vida, sendo que a família tem que reorganizar-se para poder lidar com a situação, pois a prestação de cuidados implica um processo de readaptação a novos papéis, tanto por parte do cuidador como por parte do alvo dos cuidados.
Esta readaptação a um novo papel, a novas responsabilidades normalmente é acompanhada de sentimentos de elevada realização pessoal. Quem cuida procura dar o melhor de si em prol do bem-estar de quem é cuidado e quando cumpre este objectivo o cuidador sente-se útil, há uma troca mais intensa de afectos e experiências, que aproximam de forma evidente a pessoa dependente e o seu cuidador. Esta aproximação provoca orgulho pelos cuidados prestados, prazer por ver o familiar bem cuidado, sentimento de dever cumprido, etc.
Por outro lado, importa também evidenciar que ao assumir-se como cuidador principal de um familiar, quem cuida vai a curto prazo sofrer considerável desgaste físico e emocional, devido às exigências que o novo papel impõe. Assim sendo, podem surgir questões relacionadas com as dificuldades financeiras que uma doença crónica acarreta ou com as exigências de tempo e energia que o doente possa fazer. Por outro lado, o quotidiano do cuidador é alterado, sendo que muitas vezes não encontra tempo para si ou para dedicar à família e outras relações interpessoais. Do ponto de vista emocional também se podem verificar algumas alterações, como é o caso do aparecimento de sentimentos de culpa do cuidador, vergonha, baixa auto-estima e preocupação excessiva com o familiar dependente.


Como cuidar de si:

Descansar e ter uma alimentação adequada.
Procurar ter tempo livre.
Desabafar, falar dos problemas com alguém.
Praticar exercício físico.
Estar informado sobre os processos da doença de quem cuida.
Encontrar soluções para acalmar-se em momentos de maior stress.
Planear com antecedência e estar preparado para o que possa acontecer.
Experimentar várias soluções até encontrar a que resulte.
Podemos então concluir que o acto de cuidar, embora uma tarefa pesada e difícil, é um acto de humanismo, de demonstração de amor perante um familiar ou amigo que se depara com uma situação em que necessita de ajuda.