18 de abril de 2017

Dar Voz à Voz: A Voz na Educação






“... através da voz, traduzimos quem somos, 
o que sentimos e como vemos o mundo” 
Mara Belau & Paulo Pontes

O profissional da voz é definido como “O individuo que depende de uma certa produção e/ou qualidade vocal específica para a sua sobrevivência” (Behlau et al. 2005).

Numa sociedade moderna, um terço dos trabalhadores inserem-se em profissões em que a voz é a sua principal ferramenta de trabalho. O aparecimento de patologias vocais é comum na generalidade, no entanto, são mais comuns em profissões com uma grande utilização vocal como é o caso de professores e educadores de infância. Este grupo de profissionais, utiliza a voz durante um longo período de tempo com uma grande projeção vocal pela dimensão das salas de aulas, e na sua maioria, em salas de aula com má acústica onde existe muito ruido de fundo.

A voz do professor tem como principal objetivo, transmitir conhecimentos aos alunos fazendo com que eles aprendam os conteúdos programáticos, mas a voz é utilizada também para controlar os alunos, assim como expressar sentimentos.

É através da voz que expressamos oralmente as nossas ideias e os nossos pensamentos mas para além disso a voz é também uma das extensões mais fortes da nossa personalidade e consegue espelhar o nosso estado emocional. É parte da identidade e atitude de cada um de nós enquanto falantes e comunicadores.

Os professores e educadores de infância representam uma profissão com uma pesada carga vocal. Este fator, aliado à falta de conhecimento técnico sobre o correto uso vocal, proporciona o aparecimento de patologias vocais. Na sua maioria o desgaste vocal aparece gradualmente, quase que impercetivelmente, em que os sintomas iniciais são desvalorizados por não produzirem modificações percetíveis e significantes.

As queixas vocais mais comuns entre professores e educadores de infância são a rouquidão, sensação de corpo estranho na garganta e de sequidão, cansaço durante a produção vocal, falhas na voz, e dor e/ou ardor na garganta.

Muitos professores apenas tomam consciência da importância da voz, como ferramenta de trabalho e na sua vida pessoal, quando começam a notar os primeiros sintomas como os referidos anteriormente (fadiga, rouquidão, cansaço vocal...), ou até mesmo depois de já terem instalada uma patologia vocal, como é o caso dos nódulos da prega vocal, a patologia mais comum do professor e educador de infância, que pode ser evitada seguindo alguns cuidados. Não só a má utilização da voz pode provocar patologia, outro fatores como o stress, alergias, condições de trabalho inadequadas, gripes e constipações, fumo, álcool, hábitos de falar muito alto e por um período de tempo prolongado, tem um impacto extremamente negativo na voz.

Uma vez que na maioria das vezes, as alterações vocais nos professores e educadores de infância, estão intimamente ligadas ao funcionamento vocal, é necessário que este grupo de profissionais receba formação e orientação sobre o uso e funcionamento vocal, assim como cuidados a ter durante a sua produção para manter uma voz saudável e prevenindo possíveis patologias.

A regra básica para um profissional da voz é a hidratação, é fundamental a ingestão de água ao longo do período de produção vocal. Os líquidos ingeridos devem estar preferencialmente a temperatura ambiente. Segundo Wyk et al. (2016) a hidratação melhora o desempenho vocal dos profissionais da voz. O aquecimento vocal é outro dos hábitos que deveria ser praticado pelos professores e educadores, assim como seria impensável para qualquer atleta iniciar a sua atividade física sem aquecer e alongar os músculos, os professores e educadores que irão estar a utilizar a voz durante um longo período de tempo também deveriam aquecer a voz através de técnicas específicas para esse efeito.

Alguns hábitos diários podem ajudar a melhorar a saúde vocal sendo eles: evitar alimentos muito gordurosos ou condimentados assim como bebidas muito quentes ou muito frias; ter consigo sempre uma garrafa de água à temperatura ambiente; alongar a musculatura da cintura escapular; evitar falar por longos períodos de tempo e com alta intensidade principalmente em ambientes muito secos e com ar condicionado; evitar o consumo de álcool e tabaco; proteger-se de correntes de ar e agasalhar-se adequadamente em dias de frio; evitar o consumo de chocolates, leite e seus derivados antes das aulas uma vez que estes alimentos aumentam as secreções no trato vocal, aumentando assim a necessidade de pigarreio e comprometendo a qualidade vocal.

É importante que o professor verifique quais as mudanças que pode aplicar no seu dia-a- dia e se necessário procurar um otorrinolaringologista e/ou um terapeuta da fala que são os profissionais capacitados para esclarecer as suas dúvidas e ajudá-lo a encontrar soluções para situações relacionadas com a voz, lembrando que a prevenção é sempre a melhor opção. 

28 de março de 2017

Os Desafios de Ser Pai na Actualidade



“Não há amor que mais facilmente perdoe,

e mais benignamente interprete e dissimule defeitos,

que o amor de pai.”

Padre António Vieira


Nas últimas décadas, assistimos a uma mudança de paradigma quanto ao papel do pai. O pai, que outrora era percecionado como distante e símbolo de autoridade, deu lugar a um pai cada vez mais presente e motivado para participar em todo o processo que envolve o período gestacional, pós-parto e o desenvolvimento da criança.

Na década de oitenta, começou a estudar-se a importância da figura paterna na educação dos filhos. A relação pai-filho, até aqui negligenciada, começou, a partir desta altura, a assumir grande importância no estudo do desenvolvimento da criança. Foi então possível verificar que a ligação emocional entre o pai e o filho é determinante no processo de transição para a paternidade, assim como para o desenvolvimento do bebé. Este processo decorre num período durante o qual, um homem sem filhos, interioriza pouco a pouco a primeira gestação da mulher e o desenvolvimento fetal do seu primeiro filho. Este período de preparação, durante a gravidez, mais evidente no 3º trimestre, é um período de aprendizagem e adaptação para uma nova fase de desempenho do papel de pai. Neste sentido, é crucial estimular a vivencia de uma parentalidade positiva, a qual pode ser realizada mediante comportamentos que promovam o processo de vinculação.

Atualmente, a gravidez é uma fase da vida partilhada por ambos os progenitores. A maioria dos pais vivencia a gravidez passo a passo, acompanhando a mulher às consultas e aos exames, experienciando com ela todos os momentos importantes no decorrer dos nove meses e preparando, em conjunto, toda a logística necessária para receber o bebé em casa.

No decurso da gravidez é, também, essencial que o casal reflita sobre a presença do pai no momento do parto, cabendo esta decisão apenas ao casal. Se o homem achar que vai ficar demasiado ansioso, impressionado, ou até sentir-se mal (“a imagem clássica do pai a desmaiar na sala de partos”), não tem de culpabilizar-se se decidir não assistir ao parto. A mulher poderá ser acompanhada por um familiar ou alguém que lhe transmita confiança e serenidade. Não obstante, e pensando também naqueles pais que se sentem aptos para assistir ao momento do parto, salienta-se que os estudos realizados indicam que existem inúmeras vantagens para a tríade mãe-pai-filho com a presença do pai durante o parto. De acordo com esses estudos, as mulheres acompanhadas durante o parto estão tendencialmente menos ansiosas, manifestando mais prazer no primeiro contato com o seu filho recém-nascido. Neste sentido, pode dizer-se que o papel do pai, durante o parto, influencia positivamente o comportamento materno e o processo de vinculação mãe-filho. Contudo é necessário que os profissionais de saúde estejam atentos e recebam formação para proporcionar também ao pai uma experiência positiva e gratificante. É importante ter em conta que o pai, durante o parto, pode experienciar sentimentos de ansiedade, inutilidade e desamparo, devido à exigência de todo o processo que antecede o nascimento do bebé, necessitando também ele de apoio.

Após o nascimento do bebé, a tendência atual é de que mãe e pai tenham um papel ativo, partilhando as tarefas necessárias e envolvendo-se em todo o processo de educação e estimulação da criança.

De um modo geral, o pai é muito importante para que a criança tenha um desenvolvimento global adequado e saudável, podendo funcionar como um fator protetor para problemas psicológicos e/ou psicossomáticos da criança, caso esteja presente na vida do seu filho desde a gestação e desenvolva com ele uma relação baseada no afeto, amor, amparo e suporte. A relação pai-filho é assim um dos fatores determinantes para o desenvolvimento cognitivo e social da criança, sendo também facilitadora da capacidade de aprendizagem e integração da criança na sociedade.

As funções do pai e da mãe são assim complementares. Ser pai e ser mãe são condições construídas numa relação afetiva a três, não sendo desejável que uma das partes seja excluída ou tenha uma participação secundária. É assim desejável que o filho seja uma prioridade na relação entre o pai e a mãe, os quais devem proporcionar, de forma partilhada e equitativa, amor, cuidados, educação, segurança física e afetiva à criança.

Neste sentido, salienta-se que, a função paterna, à semelhança da função materna, tem um papel central no desenvolvimento e estruturação do mundo emocional interno da criança e na formação da personalidade do adulto. É na família, mediadora entre individuo e sociedade, que a criança aprende a perceber o mundo que a rodeia e a situar-se nele. A família é a formadora da primeira identidade social da criança, e é no convívio com a família que a criança internaliza padrões de comportamento, normas e valores da sua realidade social. Isto acontece pela mediação do pai e mãe, que estabelecem vínculos básicos e essenciais entre a criança e o mundo social, situação a partir da qual ela passa a se reconhecer e a reconhecer o outro numa relação de reciprocidade.

Tendo em conta o exposto e na sequência do artigo anterior, quero convidar todos os pais a refletirem sobre a relação que têm com os seus filhos e sobre como a podem melhorar, caso assim o entendam. Aproveito para sugerir que celebrem sempre essa relação, através da partilha de momentos de afeto e amor, pois são cruciais para ter e manter uma relação de pai e filho adequada e saudável. E não se esqueçam também da importância da chamada “tríade mãe-pai-filho”, pois também ela necessita de ser cuidada e trabalhada, para que se mantenha sempre saudável. Só assim podemos contribuir para o bem-estar psico-emocional e saúde física das nossas crianças e dos seus pais e mães, e contribuir para uma sociedade e humanidade mais saudável e inclusiva.





19 de dezembro de 2016

A mulher que também é Mãe!


Pode secar-se, num coração de mulher, a seiva de todos os amores:
nunca se extinguirá a do amor materno.
Júlio Dantas


Na história da humanidade, o papel da mulher tem vindo a sofrer várias mudanças, de acordo com as necessidades e interesses sociais de cada época. A mulher portuguesa, na sociedade atual, tem uma grande expressão no mercado de trabalho, e ainda assim continua a desempenhar as funções de organização do lar e a ter um papel preponderante no apoio à família.
A maternidade surge então como um dos papéis que algumas mulheres escolhem experienciar, sendo este um papel muito importante: não só para a mulher que também é mãe, como para o(s) seu(s) filho(s) e família, assim como para a sociedade e humanidade.
Se refletirmos um pouco sobre qual o papel da mulher, enquanto mãe, verificamos que a mesma tem uma importância ímpar na formação do(s) seu(s) filho(s) enquanto pessoa(s), assim como no(s) adulto(s) que se irá(ão) formar. A importância do seu papel começa a evidenciar-se desde muito cedo, pois o aparecimento e o inicio da vida psíquica no bebé começa na relação que é estabelecida com a mãe.
De acordo com o pediatra inglês Donald Winnicott, os cuidados maternos quando adequados são indissociáveis do bebé e garantia de uma boa saúde mental. Segundo este pediatra, um bebé isolado não existe – defendendo que quando encontramos uma criança encontramos os cuidados maternos. E acrescenta ainda que o rosto da mãe é o primeiro e único espelho verdadeiro da criança.
A relação mãe-bebé está assim relacionada de forma muito significativa com o processo de maturação da criança. Pode-se dizer que as primeiras experiências intersubjetivas se desenvolvem num banho de afetos. A mãe comunica os seus afetos interpretando as necessidades e desejos do bebé, utilizando as suas capacidades de empatia para entender os seus estados afetivos. A criança aprende a conhecer o ambiente e o seu conteúdo através da interação dinâmica com a sua mãe. No inicio assiste-se à chamada díade relacional (mãe-bebé) e posteriormente com a introdução do pai, passa a existir a chamada “tríade relacional de afetos” (mãe-pai-bebé), cada um com a sua função na formação do desenvolvimento psicológico e emocional da criança.
Pode-se dizer que a relação estabelecida entre a mãe e a criança será a “plataforma psíquica”, na qual a criança constrói a sua identidade social. Se existirem bons alicerces, esta construção será harmoniosa e estável, se não for bem-sucedida, a criança poderá desenvolver alguns problemas psicológicos e/ou problemas psicossomáticos. Esta relação irá ter um papel crucial naquele que será o desenvolvimento futuro da criança, e também enquanto adolescente e adulto, no que se refere ao seu mundo emocional interno e à sua capacidade em se relacionar consigo mesmo e com os outros.
O papel da mãe durante as várias fases de desenvolvimento do seu filho vai sofrendo adaptações, por forma a promover, progressivamente, a autonomia do seu filho. Não obstante, o seu papel continua a ser muito importante, ainda que, naturalmente deva ser gradualmente diferente. Algumas mães poderão sentir alguma dificuldade durante este processo, uma vez que o filho bebé que outrora dependia de si para sobreviver, vai, progressivamente, crescendo e querendo ser autónomo. Esta evolução deverá ser encarada pela mãe como um processo de crescimento adequado e positivo. Naturalmente, será sempre importante que a mãe possa estar presente nos momentos em que a sua presença, suporte e a chamada “função materna” sejam necessárias. E ao longo do processo de crescimento do filho ela vai sendo necessária inúmeras vezes.
O mais importante é o filho sentir que, sempre que precisar, independentemente da sua idade, poderá ter e encontrar na sua mãe, o amor, suporte, amparo e orientação que precisa. Caso este entendimento exista no filho, pode-se dizer que o papel da mulher enquanto mãe está a contribuir para um desenvolvimento emocional adequado, o qual terá repercussões positivas no desenvolvimento global do seu filho.
Nesta quadra natalícia gostaria de sugerir que, independentemente da idade mãe e do filho, celebrassem a relação que existe entre ambos. Pois como referi em alguns momentos durante esta pequena reflexão, é uma relação muito importante não só para o filho e para a mãe, mas também para a família, sociedade e humanidade.
O amor e o afeto que nascem da relação entre mãe e filho devem ser sempre celebrados, não só nesta quadra, mas todos os dias. É importante para a saúde mental da mãe e do filho que esse afeto não fique “guardado” dentro de cada um, mas que possa ser manifestado, adequadamente, através de palavras e gestos, pois a sua partilha e troca são fundamentais para o bem-estar psico-emocional e físico de ambos e consequentemente, para o bem-estar e “saúde” da família, sociedade e humanidade.

16 de maio de 2016

Aprender e brincar entre panelas e fogões





 “É um péssimo cozinheiro aquele que não pode lamber os próprios dedos.”
(William Shakespeare)
Quantos de nós ao recordarmos com ternura um cheiro ou um sabor somos levados de volta para aquela memória doce da nossa infância? O aroma do bolo quentinho da nossa mãe ou avó a sair do forno, o cheiro da panela ao lume, o calor da cozinha que nos aquecia a alma. Ou aquele prato preferido que nos deliciava e nos enchia os olhos, a barriga e, sobretudo, o coração.
Na azáfama da nossa vida, no ritmo acelerado em que ela se reproduz, entre trabalho e rotinas, entre tarefas diárias que não podem ser deixadas para amanhã, deixamos de ter tempo de qualidade para nós e, irrevogavelmente, para os nossos filhos. Fazemos tudo depressa demais, sem parar para sentir e saborear o momento.
Ao usar as palavras “sentir” e “saborear” não as escrevo em vão, talvez por me ser algo tão íntimo, vejo a cozinha como uma aliada na vivência de momentos felizes em família. Pense na sua cozinha! As crianças ficam fascinadas com tudo o que por lá encontram. Um misterioso mundo começa quando as crianças entram por aquela porta: tachos e panelas, recipientes grandes e pequenos, uma interminável amostra de especiarias e utensílios, alimentos de todas as cores e cheiros que lhe enchem o nariz de curiosidade. É talvez o lugar da casa mais apetecível de explorar, onde eles anseiam serem exploradores por conta própria e partir à descoberta de cada recanto daquela divisão que tanto os cativa.
            Já pensou levar o seu filho para a cozinha? Sim, irá precisar de tempo, de uma dose extra de paciência e, certamente, a cozinha irá pedir uma limpeza no final. Faz parte, mesmo com todo o cuidado, haverá farinha que se espalha, leite que se derrama, especiarias pelo chão. Mas a essência da cozinha é isto mesmo, é mexer com as mãos, descobrir novos cheiros, sabores, cores e texturas. É inventar e cozinhar com todos os sentidos que o nosso corpo nos permite ter. Citando William Shakespeare “é um péssimo cozinheiro aquele que não pode lamber os próprios dedos”, e as crianças, inicialmente, necessitam de sujar-se, lambuzar-se, provar e meter a mão para sentir as texturas e descobrir um mundo infindável de sabores. Haverá algo mais irresistível do que o prazer de colocar o dedo na massa do bolo e provar?!
Nunca é cedo nem tarde demais para deixar a pequenada pôr as mãos na massa, especialmente porque cozinhar com as crianças é passarem tempo de qualidade juntos, aprenderem e divertirem-se.
Descontração, paciência, tempo e criatividade são ingredientes essenciais que misturados delicadamente e envolvidos, com uma dose de amor, resultam em deliciosos hábitos para toda a família.
Fortificar a relação com a comida, ensinar o nome de cada alimento e a sua importância, aprender como usar da melhor forma os legumes e a fruta, estar em contacto com novos alimentos incentiva a criança a provar e a criar novos hábitos alimentares, permitindo aumentar e educar o paladar. Além disso ao envolvê-las desde cedo na preparação das refeições, na escolha da receita, na organização dos ingredientes e do material necessário para a sua realização facilita o desenvolvimento de valores como a organização e a responsabilidade.
Entre panelas e fogões as crianças aprendem muito! O tempo passado na cozinha é, em simultâneo, uma escola onde a aprendizagem se encontra agradavelmente disfarçada. As crianças aprendem valores necessários para o seu desenvolvimento psicológico como a autonomia, a autoestima, a concentração, a criatividade, o valor de colaborar nas tarefas e a importância de as realizar até ao fim, desenvolvem a sua destreza manual e permite trabalhar a motivação da criança para o conhecimento, a descoberta, o trabalho em equipa e o saber esperar. Realmente cozinhar requer muita paciência e disciplina: seguir a receita e respeitar as suas instruções, selecionar os ingredientes e os utensílios necessários, esperar que a massa esteja bem mexida e envolvida ou que um bolo coza, ou que arrefeça para ser degustado.
Na cozinha as crianças trabalham e desenvolvem competências imprescindíveis em quase todas as áreas do conhecimento. Aprendem mais sobre a matemática, quando contam ou pesam um ingrediente ou calculam o tempo para o prato ficar pronto. Será uma forma engraçada de aprender a contar ou aperfeiçoar os conhecimentos dos números, medidas e quantidades.
Aprendem mais sobre o português, através da leitura das receitas, que lhes permite praticar e conhecer novas palavras.
Aprendem mais sobre a ciência, ao descobrirem a origem dos alimentos e dos seus benefícios e ao criarem e verificarem como os alimentos se transformam.
Aprendem mais sobre cultura, as receitas são, muitas das vezes, uma viagem pelo mundo e uma forma engraçada de entrar na cozinha de outros povos, abrindo caminho para conversar sobre costumes, tradições, línguas e paladares diferentes.
            O leque de conhecimento que descobrirá é interminável. Quando a criança demonstrar alguma habilidade manual para manipular os alimentos e conseguir compreender e executar instruções, será o momento ideal para os inserir no mundo da culinária.
Comece com receitas pequenas, simples e acessíveis, tendo em conta a sua idade e o grau de exigência. As tarefas devem ser, de forma clara, adaptadas ao desenvolvimento de cada criança e é crucial a valorização das suas capacidades. Os mais pequenos podem lavar a fruta e os vegetais, misturar os alimentos com uma colher como as massas leves ou permita-lhes envolver a fruta e o iogurte, passar os alimentos de um recipiente para o outro com a mão ou a colher, decorar bolos, cortar a massa de bolachas em formas diferentes. Os mais crescidos podem cortar fruta e vegetais, partir e bater os ovos, medir os diferentes ingredientes, misturar os alimentos, barrar os bolos com uma cobertura, ler as receitas em voz alta.
            A cozinha será um recanto onde viverá momentos memoráveis com o seu filho. Coloquem o avental, um chapéu de cozinheiro e desfrutem do prazer de criarem algo juntos.
No fim, elogie muito, partilhem as emoções desse dia e pare, sinta e saboreie o momento.
Retificação: Nos últimos artigos, por lapso nosso, não foram incluídos os nomes das colaboradoras Adelaide Ruivinho e Juliana Martins. Aos leitores e às visadas o nosso pedido de desculpas. P’lo NEIP.

26 de abril de 2016

Imagina-os de cuecas




“Há pessoas desagradáveis apesar das suas qualidades
e outras encantadoras apesar dos seus defeitos.”
 François La Rochefoucauld.







Neste pequeno texto irei tentar conduzir o leitor pelo complexo mundo da ansiedade social, esperando conseguir esclarecê-lo e sensibilizá-lo para uma realidade vivida por muitos.
Perante situações stressantes ou que provoquem ansiedade, é desencadeada uma resposta ansiosa que faz parte do sistema adaptativo de sobrevivência. Já todos nós vivemos alguma situação que nos tenha despoletado nervosismo, tensão e ansiedade, a qual, por sua vez, irá provocar uma reação no nosso corpo. Por vezes experimentamos tremores, sudação, urgência de micção, rubor e outros sintomas somáticos que são respostas adaptativas que remetem aos primórdios da existência humana e que ajudavam à sobrevivência numa era em que o perigo se encontrava ao virar de cada esquina.
A ansiedade desempenha importantes funções quando em pequenas doses, mas se se prolongar no tempo ou atingir níveis elevados pode acarretar diversos problemas. A Ansiedade Social é experimentada em situações sociais, na interação com outras pessoas, tanto hierarquicamente tidas como superiores, como em contextos sociais que envolvam um determinado número de indivíduos. Em casos mais extremos pode levar ao evitamento de determinadas situações sociais e, consequentemente, ao isolamento social.
O receio de ser avaliado negativamente pelos outros, de parecer ridículo, desajeitado, de sentir que não se está à altura de uma determinada situação, ou de ver o seu estatuto social diminuído, desencadeia graus elevados de desconforto e medo, limitando severamente a vida diária de quem sofre deste tipo de ansiedade. Situações aparentemente triviais tornam-se desconfortáveis devido a um estado permanente de vigilância, avaliação e comparação com os demais na tentativa de se protegerem de avaliações negativas pelos outros.
O foco da ansiedade social é o desejo de transmitir aos outros uma impressão favorável de si mesmo, combinado de uma grande insegurança acerca da sua capacidade para o conseguir.
Quando confrontados com situações sociais que os indivíduos com Ansiedade Social interpretam como ameaçadoras ou perigosas são ativados alguns sintomas somáticos e cognitivos, que podem incluir tremor, rubor, taquicardia, sudação, palpitações cardíacas, pensamentos avaliativos negativos, dificuldades de concentração ou “vazio mental”. Por sua vez, estes sintomas podem ser reinterpretados como uma nova ameaça, criando um ciclo vicioso que mantém ou amplifica ainda mais a ansiedade.
Nestas situações interpretadas como ameaçadoras, os indivíduos com Ansiedade Social desenvolvem uma atenção auto-focada, centrando-se na observação e monitorização de si mesmos. Esta atenção tem um efeito intensificador da perceção das sensações corporais, tornando mais consistente e intensificando os sintomas somáticos e cognitivos de ansiedade já existentes. Para além disto, apresenta um efeito de interferência no processamento dos estímulos originados na situação social, levando a que a pessoa processe deficitariamente os sinais de comunicação emitidos pelos outros.
A informação interoceptiva (que é originada no organismo como é exemplo a sudação) intensificada pela atenção auto-focada, é utilizada para criar uma imagem de si mesmo, que assume corresponder ou refletir a forma como os demais o vêem ou pensam acerca dele. Uma pessoa com Ansiedade Social centra preferencialmente a sua atenção nos sinais somáticos e cognitivos da ansiedade que está a sentir, construindo uma imagem (normalmente, negativa e distorcida) de si que assume automaticamente ser a impressão que os outros têm dele.
A Ansiedade Social é, usualmente, acompanhada de comportamentos de segurança que ajudam à sua manutenção. Quando confrontados com uma situação social percecionada como ameaçadora, pessoas com Ansiedade Social tendem a utilizar um conjunto de comportamentos através dos quais procuram diminuir o sentimento de ameaça e ansiedade, bem como o risco de serem avaliados negativamente. Muitas vezes, por exemplo, tentam evitar atrair a atenção para si, verificam ou controlam cuidadosamente o que vão dizer ou evitam o contacto visual.
A possibilidade destas pessoas terem experiências sociais realmente novas e que possam desconfirmar o seu receio de ser avaliada negativamente fica desta forma reduzida, condenando-a à repetição de ciclos interpessoais rígidos que mantém a Ansiedade. Um aspeto, frequentemente, observado na Ansiedade Social é a manutenção do receio de uma avaliação negativa pelos demais apesar das experiências sociais que aparentemente deveriam desconfirmar esse receio, assim como, o benefício limitado que muitos desses indivíduos retiram de exercícios de exposição. 
A Ansiedade Social, normalmente, surge acompanhada pela ansiedade antecipatória e o processamento pós-situação. As pessoas com Ansiedade Social tendem a antecipar uma situação social receada e antever em detalhe o que poderá acontecer nessa mesma situação. Quando iniciam esta antecipação ficam ansiosos e os seus pensamentos são dominados por memórias dos seus fracassos em situações sociais anteriores, imagens negativas de si na situação e pensamentos automáticos de insucesso.
Usualmente, estas pessoas ao tentarem diminuir o receio de avaliação negativa pelos outros, antecipando detalhadamente o que poderá ocorrer na situação social, geram um conjunto de processos cognitivos que vão aumentar a sua ansiedade e contribuir para um funcionamento social pouco eficiente, o que, por sua vez, contribui para a manutenção da Ansiedade Social.
Se a Ansiedade Social diminui habitualmente ao sair ou terminar a situação de interação, as pessoas com esta perturbação descrevem um sentimento de humilhação ou vergonha que persiste por um longo período de tempo após a situação social. Este sentimento de vergonha parece estar associado à tendência para a realização da “autópsia” da situação, revendo com detalhe tudo aquilo que aconteceu na mesma. Apesar do objetivo desta “autópsia” ser o de tranquilizar o receio de ter sido avaliado negativamente, o seu resultado é inverso e a “autópsia” aumenta o sentimento de humilhação e inadequação social.
Na Ansiedade Social são desenvolvidos auto-esquemas, ou seja crenças acerca de si, de ineficácia e inaptidão para lidar com situações sociais e de suposições rígidas e disfuncionais acerca do que deve ser um comportamento social adequado.
Em suma, indivíduos com Ansiedade Social interpretam as situações sociais como ameaçadoras, distorcem negativamente a avaliação do seu desempenho social e avaliam erroneamente, e de forma excessiva, a visibilidade dos sintomas da sua ansiedade pelos outros.
A Ansiedade Social causa um grande sofrimento a quem apresenta estes sintomas, mas com a devida ajuda especializada consegue ser tratada.


Para se poder ser membro irrepreensível dum rebanho de carneiros é preciso,
antes de mais nada, ser-se carneiro.
 Albert Einstein.

16 de março de 2016

Género (s)- do estigma à aceitação - 2ª parte


Uma elevada autoestima é, por vezes, vital para o desenvolvimento da capacidade de resolver os desafios que a vida apresenta. Na maioria das sociedades e culturas as pessoas que variam dos esquemas de género convencionais são estigmatizadas sendo que as hostilidades que surgem deste estigma podem causar desgaste emocional na criança e dificultar o desenvolvimento saudável da sua identidade. Sem o apoio dos pais, a criança com esta especificidade pode, inclusive, chegar a acreditar que merece ser estigmatizada. De forma a bloquear os efeitos negativos do estigma social, os pais, devem demonstrar uma atitude afirmativa comunicando à criança que a aceitam e a respeitam tal como ela é.
            Como qualquer criança que precisa de amor, aceitação e compreensão, a criança com comportamentos de género variantes porventura necessita destes sentimentos ainda de um modo mais especial. Quanto mais críticos forem os seus pares e a sociedade em geral, mais ela necessita do apoio e da aceitação dos de sua casa e familiares mais próximos. De facto, as crianças são muito mais resistentes e capazes de suportar desafios difíceis quando sentem que os seus pais estão do seu lado numa atitude de apoio incondicional e conscientes dos seus papéis de protetores. Muitas crianças com traços variantes de género passam por isolamento social e sofrem maus-tratos. Em situações limite, o lar pode ser o único espaço onde a criança se possa sentir a salvo das atitudes de censura e de hostilidade. Desta forma, é importante criar uma atmosfera de aceitação em casa para que ela possa expressar os seus interesses livremente. É, de facto, um objetivo interessante começar por trabalhar a sua própria casa como um espaço privilegiado onde esta possa sentir que pode atuar de maneira autêntica sem ter que autocensurar-se para benefício de outrem.
            No que respeita ao enquadramento social e vivencias quotidianas de uma criança com esta especificidade é importante incentivar atividades das quais a criança desfrute e para as quais detém um dom natural não sendo aconselhável forçar atividades que ela sinta como impostas. Deve-se enfatizar que cada pessoa é única e diferente, evitando utilizar frases como “tens que brincar com bonecas”, “jogar à bola é para os meninos”. Em vez de se utilizar generalizações que são falsas, deve-se explicar que, ainda que a maioria das meninas (por ex.) não estão interessadas em futebol, existem meninas que estão e isso não faz mal.
            É importante falar abertamente com a criança e com calma acerca dos seus interesses e comportamentos fazendo com que ela reconheça que é, diferente, em termos positivos. Usar frases como “és única” e conversando de como alguém se pode sentir ao perceber-se diferente dos outros. No entanto, esta criança não pode sentir que é a única no mundo a sentir-se assim. Ajudá-la a compreender que, mesmo que nem todos a entendam ou respeitem, o gostar de coisas diferentes não é motivo para se envergonhar, mas sim uma qualidade única e positiva. Devemos transmitir uma mensagem construtiva e assegurar à criança que quando ela crescer vai ter amigos que irão compartir os seus interesses. Será pois importante cultivar amizade com outras famílias que tenham uma atitude tolerante e de aceitação de todo o tipo de diferenças.
Este desafio também afecta outros familiares. Por isso é importante falar com os familiares mais próximos, educadores e amigos da família, comunicando quais são as necessidades da criança e o que se espera deles.
            As crianças que são verbalmente ou fisicamente agredidas pelos seus pares ficam muitas vezes assustadas ou sentem-se demasiado envergonhadas para falar do assunto. O ideal é que a criança conte o que se passa com ela, no entanto, ela nem sempre irá expressar o que sente. É necessário estarmos atentos a possíveis sinais que possam indicar que ela está com problemas. Estes sinais incluem o negar-se a ir à escola, não querer sair de casa, queixar-se de dores e sintomas sem causa física e, chorar excessivamente ou sem motivo aparente.
            Jamais se deve culpar a criança, a si mesmo ou ao seu companheiro(a). Os comportamentos de género variantes são o produto de como a natureza criou a criança. Estas características não foram causadas pelos pais e não podem ser modificadas por ninguém. De facto, ao preocupar-se em que a criança mude vai estar a perder a oportunidade de desfrutar da própria infância da criança e, simultaneamente, perder-se-ão a longo prazo as recompensas de uma atitude de afirmação e aceitação por parte dos pais. De facto, a pressão social apenas leva a que a criança esconda os seus interesses e a suprimir a sua espontaneidade. Isto intensifica-se se a criança acreditar que deve ser diferente do que é para ser aceite e querida pelos seus pais. Ao pressionar, os pais comunicam que é preferível atuar de uma maneira que não é natural, do que ser autêntico e coerente consigo mesmo.
O ser diferente não valida a intolerância baseada em preconceitos. Não se deve reprovar a criança pela crueldade dos outros, pois ninguém merece ser maltratado. Quando se souber de um ato de agressão dirigido à criança é importante averiguar o que se passou e ajudar a criança a planear como responder no futuro.



5 de fevereiro de 2016

Género(s)



“Com palavras e atos nos inserimos no mundo humano, realizando um segundo nascimento, no qual confirmamos e assumimos o fato original e singular do nosso aparecimento físico.”
Hannah Arendt
Filósofa alemã

Estudos recentes apontam para os efeitos dos androgénios fetais na organização cerebral de um padrão sexual e, também, no facto da testosterona afetar os neurónios cerebrais que contribuem para a masculinização do cérebro, em áreas como o hipotálamo.
            Antes dos três anos de idade, as crianças desenvolvem interesses e preferências que são típicas do seu género. Numa etapa seguinte, sensivelmente aos cinco ou seis anos de idade, elas são já capazes de reconhecer os comportamentos de género, tanto os que são típicos para cada um dos sexos como os que não são. No entanto, algumas crianças desenvolvem-se de forma diferente, possuindo interesses que são considerados típicos do outro sexo e, por vezes, preferem a aparência e atuam como se fossem do outro sexo. Estas condutas designam-se por comportamentos de género variantes, visto serem condutas que variam da expectativa social para cada género. As crianças com comportamentos de género variantes demonstram interesses e preferências que não se adaptam às normas culturais usualmente aceites para cada um dos géneros.
            Quando, nalguns casos, estes comportamentos de género variantes ocorrem de forma generalizada, marcada e persistente, pode-se concluir que o sujeito possui um padrão de comportamentos de género variantes que se justifica no seu interesse intenso e constante há já alguns anos. Todavia, as condutas que se observam com maior frequência têm tendência a tornar-se cada vez menos frequentes, uma vez que a criança interage mais com os seus pares no ambiente da escola. Esta diminuição dos comportamentos observados pode indicar que, à medida que matura e experimenta a crítica dos seus pares, a criança suprime algumas condutas ou dissimula para passar desapercebida. Por volta dos cinco/seis anos de idade, as crianças começam a ser mais influenciadas pela pressão social para se ajustarem aos esquemas de género convencionais. Esta pressão leva-as a modificar a aparência dos seus comportamentos para se adequar às expectativas sociais. A existência de comportamentos aparentemente diferentes não reflete necessariamente uma mudança no estado psíquico interior da criança.
Os comportamentos de género estão principalmente determinados pelos genes, ou seja, a predisposição genética faz com que os comportamentos de género fiquem “impressos nos circuitos” do cérebro antes ou pouco depois do nascimento. Obviamente o conteúdo específico dos papéis masculinos e femininos deve ser aprendido por todas as crianças, mas aquelas que variam nos seus comportamentos de género parecem estar biologicamente predispostas a assumir aspectos dos papéis típicos do outro sexo.
            Nesse sentido, é importante salientar que os comportamentos de género variantes não são causados pela forma de atuar dos pais ou por acontecimentos da infância, nem por patologia mental ou conflito psicológico. No entanto, devido à pressão social, estas crianças tendem a experimentar rejeição, críticas e maus-tratos, o que predispõe o surgimento de dificuldades psicológicas.
            Como adolescente e adulto, o sujeito que desenvolve um padrão de comportamentos de género variantes pode sentir-se emocional e fisicamente atraído por pessoas do sexo oposto, do mesmo sexo ou de ambos os sexos. Mesmo que estas três hipóteses sejam possíveis para qualquer criança, estudos de investigação que têm observado, por exemplo, o desenvolvimento de meninas com comportamentos de género variantes até à idade adulta revelam que, como adultas, a maioria delas têm uma atração física e afetiva por pessoas do seu sexo. Por outro lado, algumas meninas que têm rasgos identificativos de uma psique atitudinal masculina passam a ser adultas convencionalmente femininas. Outras, mantêm na idade adulta atitudes e interesses masculinos em maior ou menor grau.
            É importante referir que, caso subsista a pressão externa dos pais, professores e técnicos, não é capaz de modificar as características de identidade sexual essenciais da personalidade, uma vez que o temperamento e outras características profundas da identidade do sujeito são preestabelecidos e visíveis numa estrutura psíquica organizada desde a primeira infância. Além disso, esta dinâmica profundamente antipedagógica será necessariamente interpretada pela criança / jovem como um acumular de humilhações que, consequentemente, destruirá a confiança em si mesma e afetará gravemente a sua autoestima. 

Obs.: O presente artigo terá continuidade na próxima edição do JBG




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4 de dezembro de 2015

Os Sons em Tom de Brincadeira


Brincar com as palavras, articular sons,
imprimindo-lhes determinada cadência,
é sensibilizar a criança para a língua materna.”
Lourdes Custódio


As crianças conseguem desafiar-nos diariamente a participar nas suas brincadeiras preferidas. E nós temos tempo de brincar com elas? Será que estamos disponíveis para lhes dar a atenção de que precisam? Como é que uma simples brincadeira pode ser fundamental para o seu desenvolvimento? Hoje em dia o tempo que dispomos para as acompanhar é mais reduzido e, por isso, cada momento de partilha deve ser enriquecedor trazendo novas aprendizagens.
É logo desde o período intra-uterino que o bebé começa a desenvolver os seus sentidos: audição, visão, paladar, tato e olfato. Então, é já nesta altura que ouve os diferentes sons que o rodeia e começa a estabelecer contacto com o mundo exterior. Após o nascimento, com a exposição a uma ou várias línguas, a criança adquire e desenvolve a linguagem e a fala. Durante o desenvolvimento passa por diferentes etapas e, cabe-nos estimulá-la da forma que mais gosta: a brincar.
Nos primeiros meses de vida cante para o bebé, use brinquedos musicais, use diferentes expressões faciais, imite os sons dos animais, os sons dos transportes e use gestos para representar um objeto ou uma pessoa, incentivando-o também a usar. É por volta do primeiro ano de vida que o bebé diz as suas primeiras palavras. Nesta fase utilize livros ou construa o seu próprio livro com diferentes ilustrações da casa, dos animais, dos transportes. Use diferentes onomatopeias: “Como faz o pato? Qua qua qua. E o carro? Brrr brrr”. A partir dos 3 anos de idade a criança deve ser compreendida no seio familiar e pelas outras pessoas, sendo normal que ainda realize algumas trocas de sons ao falar. Porém não se esqueça de dar sempre o modelo correto da palavra, podendo repeti-la dividindo por sílabas e com tempo a criança vai sendo capaz de se corrigir. Nesta fase incentive o seu filho a contar histórias com apoio de imagens, explorando o conteúdo dos livros. Imaginem uma peça de teatro e utilizem disfarces e bonecos para representar as personagens. Aos 5 anos brinquem com as rimas, as lengalengas, os trava-línguas, as cantilenas, repetindo e ajudando a criança a memorizar.
Estas, entre muitas outras brincadeiras, são fundamentais no desenvolvimento dos mais pequenos. Não esquecendo que todos têm as suas características próprias, podendo apresentar algumas variações nas etapas de desenvolvimento da linguagem.
Acima de tudo, devemos tentar todos os dias disponibilizar algum tempo para falar com a criança, para lhe dar a atenção que precisa, para deixar que esta seja ouvida e conte as suas aventuras. É importante os mais pequenos saberem e terem a oportunidade de explorar o mundo que os rodeia, pois só assim conseguem ser crianças saudáveis envoltas num ambiente enriquecedor. 

5 de novembro de 2015

Procurar um Sentido

*

 “Se penetrássemos o sentido da vida
seríamos menos miseráveis.”
Florbela Espanca


A principal forma de sobreviver ao sofrimento é dando-lhe um sentido. Todas as vidas são em determinado momento marcadas pela dor. Apesar disso nem todas as pessoas desenvolvem doenças mentais derivadas desses traumas.
É relativamente fácil detectar os factores que podem ter levado uma pessoa a deprimir-se ou a desenvolver outra doença mental. Se conhecermos ou dedicarmos algum tempo a conversar com essa pessoa, saberemos explicar com relativa clareza aquilo que a levou àquele ponto. A própria pessoa normalmente também o sabe.
O verdadeiro desafio para quem apoia não é o diagnóstico, mas sim o caminho da recuperação. Sobre isso sabemos todos pouco. Por isso, procuramos nas ciências psicológicas, compreender os meandros não só da doença mas também da saúde. O que leva a que uma pessoa, perante inúmeros problemas não desenvolva a depressão óbvia?
Essa questão foi colocada de forma muito pertinente por aqueles que estudaram os sobreviventes dos campos de concentração, exemplo paradigmático de outros tantos horrores da nossa história.
Como é que seres humanos que viveram em condições de degradação total da sua dignidade conseguiram sobreviver? Como é que foi possível para alguns não desenvolverem doenças mentais crónicas?
Vitor Frankl viveu enquanto psicanalista uma experiência única. Sobreviveu a Auschwitz, e contou-nos como o fez, no seu livro "O homem em busca de um sentido", que escreveu em 9 dias. Em determinado momento conta-nos que se imaginou anos depois de sair do campo a dar palestras sobre aquilo que tinha vivido e a ensinar os seus alunos sobre a terapia por ele desenvolvida. Em suma, encontrou no seu sofrimento um significado. Uma missão. Compreendeu-se que o sentido da vida é uma das necessidades do ser humano.
Este é um dos marcos da psicologia humanista -existencialista. Se na dor mais profunda, compreendermos o sentido da nossa existência é quase certo que poderemos sobreviver. Para alguns, a religião cumpre essa função de dar um sentido à vida de cada um. Porém esse sentimento tem de ser alimentado a partir do interior. Para cada um é necessário que a vida faça sentido, seja coerente, compreensível e tanto quanto possível significante.
Por vezes encontramos pessoas em crise existencial. Não estão necessariamente doentes, mas estão insatisfeitas sem motivo aparente. Teriam tudo, aos nossos olhos, para serem felizes. Saúde, família, trabalho, casa e carro mas, no entanto, não estão bem. Não conseguem encontrar um motivo para viver.
Já aqui o escrevemos que não basta com ter. É necessário procurar esse motivo dentro de nós, na nossa história e no nosso presente e, por vezes, recomeçar tudo de novo.

Só assim é se explica que milhões de pessoas atravessem meio mundo a pé, com os filhos ao colo. Só assim é possível levantarmo-nos depois de perdermos tudo, incluindo, a nossa família. Só assim teremos uma hipótese de sobreviver.

* Ilustração feita por João Estevão – Projecto Escolhas Vivas (VRSA)